
Desde que comecei a percorrer o Maranhão inteiro – e já se vão quase quarenta anos –, tento compreender o tamanho real do território que ocupamos. Uma imensidão dentro de uma região única no mundo: a Amazônia Legal.
E, hoje, a certeza é a de que seu tamanho real vai muito além de seus limites de fronteira. Aí, uma pergunta simples se impõe: quando o mundo olha para essa imensidão verde, será que consegue enxergar quem vive dentro dela? Porque, para quem mora aqui, a Amazônia nunca foi apenas paisagem. É casa. Para cerca de 28 milhões de brasileiros, é o lugar onde o dia começa cedo, onde acordam para estudar, trabalhar, criar seus filhos, empreender, enfrentar as dificuldades do cotidiano.
No fim das contas, são pessoas que querem o mesmo que qualquer outra de qualquer outro lugar: tranquilidade, oportunidade e dignidade. A diferença é que vivem em uma região que o mundo inteiro observa – embora nem sempre compreenda de verdade. Sou um homem de estrada, de longas caminhadas e que sempre atuou – politicamente falando – ouvindo, conversando com as pessoas, vivendo cada canto de meu estado.
E, ao longo dessas conversas pelo interior do Maranhão, entendi que não existe futuro para a Amazônia se a discussão se limitar apenas à preservação ambiental. Preservar é essencial, isso não se discute. Mas não basta.
Não faz sentido falar em proteger a floresta sem considerar, ao mesmo tempo, em criar oportunidades para quem vive nela. Não adianta defender a natureza se a população continua sem perspectivas.
Nesta segunda (16), o Maranhão assume a presidência do Consórcio Amazônia Legal, que reúne os nove estados da região, com a missão de liderar a ampliação do protagonismo da Amazônia.
E assumir essa função exige, antes de tudo, disposição para ouvir os outros governadores, especialistas e, principalmente, quem vive na região. Significa compartilhar experiências, reconhecer acertos e aprender com as soluções que cada estado vem construindo.
Infelizmente, quase 40% da nossa gente, na Amazônia Legal, ainda vive com o básico faltando. Metade dos trabalhadores está na informalidade. É gente que acorda todo dia sem saber se o que virá no final do mês vai dar para pagar o leite, o remédio, o gás. Isso não é estatística, é vida real. É o retrato de uma floresta gigante que, para muita gente que mora nela, ainda não virou oportunidade de verdade. Mas pode virar.
Por isso, ao assumir a liderança do Consórcio, trazemos como propostas três caminhos para começar essa virada. O primeiro é discutir e investir na regularização fundiária. É quando uma família deixa de ser invisível. É quando a mulher do campo, que sempre trabalhou a terra dos outros, pode finalmente dizer “isso aqui é meu”. Aí o conflito diminui, a produção se organiza.
No Maranhão, a gente começou esse movimento com o programa Paz no Campo, que já entregou mais de 35 mil títulos de terra nos últimos três anos. Também com o programa Terras para Elas, feito de mãos dadas com organismos internacionais. O que estamos conseguindo aqui podemos ampliar para toda a Amazônia Legal.
A segunda frente envolve a bioeconomia. A floresta em pé precisa gerar renda para quem vive nela. Isso significa transformar biodiversidade em conhecimento, inovação, novos produtos e novos mercados. Com planejamento e cooperação entre os estados, a bioeconomia pode se tornar uma das bases mais sólidas do desenvolvimento amazônico nas próximas décadas.
O terceiro caminho é o turismo sustentável, porque a Amazônia não tem só floresta: tem rios gigantescos, grande diversidade de fauna e flora, uma culinária única, uma cultura popular encantadora e um povo especialmente acolhedor. Integrar esse potencial em rotas turísticas estruturadas pode gerar empregos, renda e novas oportunidades para milhares de famílias da região.
No fundo, todas essas iniciativas apontam para a mesma direção: a Amazônia não quer isolamento. Quer parceria. Quer diálogo. Quer ser vista com respeito e compreendida em toda a sua complexidade.
Preservar a floresta é indispensável. Mas preservar também significa acreditar que as pessoas que vivem nela tenham condições de prosperar.
A Amazônia continuará sendo uma das maiores riquezas ambientais do planeta. E, como já disse antes, isso ninguém discute. Mas ela também pode se tornar um exemplo para o mundo de que é possível proteger a natureza enquanto se constrói desenvolvimento, inclusão e prosperidade.
Esse é o desafio que está diante de nós.
E é com essa responsabilidade que abraçamos a missão de presidir o Consórcio Amazônia Legal. Não apenas para cuidar da Amazônia, mas para garantir que o futuro dessa região também represente um futuro digno para o seu povo.
Carlos Brandão
Governador do Maranhão